Melhores práticas ambientais, sociais e de governança (ESG, na sigla em inglês, como são conhecidas internacionalmente) vêm recebendo atenção mundial por estarem associadas a negócios sólidos, baixo custo de capital e melhor resiliência contra riscos associados a clima e sustentabilidade.

Mas o que isso significa para o ambiente de negócios no Brasil?

ESG é um termo que está sendo cada vez mais utilizado por consultores financeiros, bancos e fundos de investimento para avaliar empresas de acordo com seus impactos e desempenho em três áreas: meio ambiente, sociedade e governança.

Governança e sustentabilidade

De acordo com recente pesquisa, investidores estão contando cada vez mais com informações ESG na procura por dados de grau de investimento para apoiar seus processos de tomada de decisões, com foco em governança, direitos humanos e mudanças climáticas. E utilizando esses parâmetros como lente para investimento futuro potencial.

Isso acontece porque os critérios ESG ajudam a prover investidores com mais informações sobre as companhias onde eles estão alocando capital. Métricas ambientais ajudam o investidor a entender o relacionamento da empresa com o mundo natural e a sua dependência de recursos naturais. Métricas sociais ajudam os investidores a entender onde potenciais preocupações podem em relação a direitos humanos, relações trabalhistas, comunidades e com o público. Companhias com boa governança são mais confiáveis e menos propensas a ceder para corrupção ou coerção.

Indicadores de sustentabilidade

Por muito tempo, grandes empresas, organizações, governos e investidores consideraram os riscos “G” (governança), com foco em aspectos como contabilidade financeira e relatos de práticas, o papel de liderança do conselho e sua composição, corrupção, éticas de negócios e remuneração de executivos. Porém, na última década, a influência da parte “ES” (ambiental e social) aumentou consideravelmente.

Em complemento ao crescimento no número e na qualidade de questões ambientais e sociais que as empresas têm que reportar, a quantidade de indicadores internos relacionados a governança que também devem ser observados também aumentou.

Assim sendo, reguladores e mercados de ações também estão respondendo às crescentes demandas de investidores por informações ESG padronizadas associadas a desempenho financeiro.

ESG no Brasil

No Brasil, os parâmetros ESG estão em seu estágio inicial. As áreas que cuidam do assunto nas empresas são pequenas, quando existem, e a maior parte delas respondem a demandas de investidores globais localizados fora do Brasil, que estão integrando esses parâmetros em seus próprios processos de investimento.

Pesquisa recente do Instituto CFA sugere que nos próximos cinco anos, até 2022, os temas ambientais e sociais se tornarão significativamente próximos dos relacionados aos de governança em termos de importância.

O Brasil tenta um movimento na direção certa. A legislação garante proteção ao meio ambiente e existem uma série de iniciativas apoiando o desenvolvimento. Porém, há uma oportunidade para ir além. Companhias precisam entender seus impactos e a sua dependência da natureza e da sociedade e gerenciar riscos e oportunidades relacionados, enquanto se comunica de forma consistente com investidores.

ESG e o RH

O que ficou claro nas tendências globais recentes, bem como nas conversas nos workshops das últimas semanas é que os negócios que são líderes globais estão integrando riscos ESG, oportunidades, impactos e dependências relacionadas no processo de tomada de decisões.

Mas qual é o papel do departamento de recursos humanos de uma organização na criação e promoção de fatores-chave para que gerentes pensem e ajam de forma diferente? Sabemos que a inclusão bem-sucedida de estratégias de sustentabilidade significa:

–  Construir e implementar um casamento de negócios claro entre departamentos e unidades

–  Tornar absolutamente essencial a resolução de questões de sustentabilidade economicamente relevantes

–  Criar valor em toda a cadeia, para todos os acionistas e partes interessadas

–  Eliminar as lacunas de conhecimento entre os gestores referentes à relevância da sustentabilidade para suas atividades cotidianas

–  Eliminar “silos organizacionais”

–  E – o mais importante – mudar mentalidades para permitir maior equilíbrio entre a lucratividade no curto prazo e a estabilidade de longo prazo

Naturalmente, para realizar essas mudanças, são necessários novos conhecimentos e habilidades. Também é fundamental uma cultura corporativa e sistemas de valores que funcionem como terreno fértil para a estratégia e, principalmente, permitam às pessoas alinharem a ação empresarial com visão e propósito corporativos.

Em qualquer organização, o RH desempenha um papel extremamente importante no processo de incorporação, uma vez que ele insere as pessoas na estratégia da sustentabilidade empresarial. No entanto, muitas vezes os departamentos de RH não se sentem habilitados a instigar e implementar as mudanças necessárias às organizações a fim de integrar a sustentabilidade.

Para promover o engajamento e fomentar a liderança em sustentabilidade numa organização, o RH tem de desempenhar papeis significativos, como:

–  Alinhar incentivos internos e fatores-chavecomo recompensa, contratação de talentos e revisão de políticas e práticas do desenvolvimento da liderança

–  Manter coerência entre as diretrizes estratégicas e as ações cotidianas. O RH pode atuar como um “cão de guarda interno”, observando e ajudando a organização a abordar inconsistências. Do contrário, corre-se o risco de a empresa ser acusada de “lavagem verde”, na qual essas ações são tidas como “de fachada”

–  Criar embaixadores internos, para promover a estratégia de sustentabilidade e orientar funcionários durante os processos de mudança

–  Preencher as lacunas do conhecimento. Ao incorporar questões de sustentabilidade estrategicamente relevantes para a empresa, o RH pode se responsabilizar pela implementação do conhecimento

–  Utilizar a sustentabilidade no recrutamento e retenção de talentos. Prevê-se que encontrar talentos vai ficar cada vez mais difícil, dependendo do setor. Empresas com visão de sustentabilidade e capacidade de articulação para mostrar resultados claros na prática dos negócios terão vantagens competitivas

Entretanto, ao cumprir tais papeis o RH também enfrentará os seguintes desafios:

–  Conquistar credibilidade. As expectativas em relação ao RH são bastante elevadas, mas sua reputação nem sempre é das melhores. Assim, torna-se obrigatório reforçar sua credibilidade interna e cumprir papel proativo no apoio às estratégias de sustentabilidade. Além disso, o RH pode humanizar o tema de forma que os gestores se identifiquem, alinhando-se ao princípio básico do “conheça-se a si mesmo, conheça seu negócio e conheça sua equipe”.

–  Garantir que se coloquem as palavras em prática. As pessoas geralmente se entusiasmam ao falar de valores e princípios, mas demonstram maior resistência para agir e mudar seu comportamento.

Sistemas de RH têm o potencial de impulsionar essa mudança e ajudar as pessoas a superar barreiras, desde que:

–  A mudança de comportamento seja posicionada estrategicamente pela alta administração

–  O RH atue como consultor interno, e não como executor

–  Os gestores intermediários se envolvam com as estratégias desde o início, uma vez que mudanças geralmente se tornam reais e tangíveis no nível intermediário

–  O fôlego seja construído e sustentado por um RH engajado, demonstrando progresso e integração aos negócios

–  Os objetivos mensuráveis dos gerentes sejam revisados e devidamente alinhados

–  A integração da sustentabilidade esteja alinhada com o propósito geral da empresa

O RH e setores de sustentabilidade podem trabalhar juntos para garantir que a empresa:

–  Esteja preparada para atrair novos tipos de liderança

–  Valorize o longo prazo, a inteligência emocional, fatores de inovação e a vontade de um aprendizado contínuo

–  Promova uma visão ampla do impacto dos negócios sobre (e a partir da) sociedade, meio ambiente e economia

–  Mescle um direcionamento de cima para baixo com um engajamento livre de baixo para cima. Isso é essencial para o bom desempenho dos funcionários em relação às estratégias de sustentabilidade, nas quais o RH atua como uma espécie de conduíte

–  Alinhe sistemas de recompensa e reconhecimento com metas de sustentabilidade, ao criar maneiras de recompensar a inovação sustentável e promover competição interna

–  Desencadeie um processo interno para repensar como os negócios são feitos

–  Impulsione o alinhamento comportamental com a estratégia de sustentabilidade, por meio de mudanças nas políticas empresariais, atingindo até o comportamento individual

Para fixar ainda mais a estratégia de sustentabilidade nas organizações, setores de sustentabilidade e RH podem se unir para chamar a atenção do poder central da empresa. Essencialmente, quando não se tem poder, precisa-se de uma voz – e há situações que permitem aos indivíduos ou departamentos estabelecer uma voz que seja ouvida dentro da empresa. Identificando-as, pode-se conquistar a atenção necessária. O próximo desafio será sustentá-la e disseminá-la – o que é o mais difícil, mas não impossível.

FONTE: https://cebds.org/esg-as-tres-letras-que-estao-mudando-comportamento-os-investimentos